Um ano normal, tá bom.

Um ano normal, tá bom.

Por Kalyta Camargo

Entre março de 2020 e março de 2021, aconteceu tudo e nada, ao mesmo tempo. Primeiro, veio o medo; depois, a resiliência; na sequência, a inquietude; e, por fim, um conformismo do avesso, que não necessariamente é um “tô conformado, tenho que me cuidar pra sair dessa”, mas um “tô conformado, não tem mais jeito de sair dessa”.

Foi um ano em que um vírus invisível percorreu o mundo de ponta a ponta, comprovando o quanto os seres humanos têm contato uns com os outros, e depois isolou países inteiros dentro de casa, sem proximidade com ninguém. Pra socializar, o novo normal instituiu a máscara, oscilando entre eficácia e estética; uso constante do álcool em gel 70% nas suas possíveis variações de odor e hidratação; buffets postos à prova; e distanciamento de um metro e meio entre as pessoas. É como deveria ser. Mas nem de longe foi tão simples.

Em 365 dias, teve polícia prendendo inocentes que estavam trabalhando e soltando bandido pra não ficar doente na cadeia. Teve setores da economia colapsando e demitindo milhares de trabalhadores porque os estados não foram capazes de administrar recursos e aumentar o número de leitos pra não colapsar a saúde. Colapsou tudo. Em um único ano do século XXI da Era de Aquários, não teve Olimpíada nem Carnaval, e o ar ficou mais puro em São Paulo.

Neste cenário meio Dalí e meio Tarantino, com adicional de Isaac Asimov, a responsabilidade individual foi fundamental para a manutenção da ordem e da sanidade. Talvez por isso a procura por “como fazer composteira” e “como fazer pão caseiro” cresceu consideravelmente no Google. Neste ano em que sentimos que nada aconteceu no macro, porque nos vimos repetindo a agenda de 2020, sabemos que muito aconteceu no micro. Nasceram cozinheiros, jardineiros, empreendedores de todos os ramos, experts em live, Zoom e TikTok.

E se para uns foi um ano normal - e há quem consiga viver sobre as nuvens da pandemia, num céu de um azul desconcertante -, se pra outros foi desafiador, pra mais ou pra menos, há aqueles os quais nem sabemos medir ainda o tamanho deste ano: as crianças. Um ano sem aula, mas não um ano sem aprendizado. Um ano sem brincar com os colegas, sem festinha de aniversário pra uns, sem merenda pra outros.

Um ano em que não estar na escola potencializou a importância desta instituição, não só na prática do ensino, que se manteve com adaptações da melhor maneira que todos puderam, mas na socialização e alegria das crianças, assim como no cotidiano de atividades dos pais. Pais que voltaram às séries iniciais, acompanhando aulas online, interagindo incansavelmente pra manter o filho atento. E ali todos estavam aprendendo, inclusive os professores.

E à medida que a pandemia se materializou durante todo este ano, às vezes com a triste notícia da perda de alguém querido, às vezes com a expansão da solidariedade em vários níveis, outras vezes nas muitas mudanças no dia a dia, crescia a esperança de que, por todo o processo já percorrido e mais a corrida pela vacina, tudo estivesse chegando ao fim. Só que desde março de 2020 o fim está 15, 30, 40 dias na nossa frente. E segue adiado. Se vai levar um mês, seis, outro ano ou dois, pra vida voltar ao velho normal, definitivamente, ninguém sabe. Depois de um ano onde tudo e nada aconteceu simultaneamente, não há sequer quem crave que voltaremos um dia ao velho normal. E nem precisa. Um ano normal já tá bom.